
Sabia que a arremetida tem nome, e até sobrenome?
Entenda o que são Aproximação Descontinuada, Arremetida, Rejected Landing e Balked Landing. Esses termos aparecem com frequência em manuais, treinamentos e nas conversas de hangar — mas não significam a mesma coisa. Entender quando cada conceito se aplica faz a diferença em segurança, procedimento e até em como o evento deve ser registrado.
Os termos ‘Rejected Landing’ e ‘Balked Landing’ podem até ser desconhecidos para alguns, mas quando se um dia você voar aeronaves maiores, com certeza você escutará falar deles! A seguir, organizamos o tema em perguntas e respostas para você descobrir, e nunca mais errar, qual é o nome da sua ‘arremetida’.
O que é uma aproximação descontinuada?
A aproximação descontinuada é um termo genérico, usado quando a aproximação não resulta em pouso, normalmente a uma distância e tempo consideráveis da pista. Na prática, o termo costuma ser aplicado quando a decisão ocorre:
- Antes da curva para a final; ou
- Já na final, mas ainda alto e/ou distante, por exemplo acima de 2000’ AGL.
Nesses casos:
- Não há uma condição crítica de energia;
- Não existe expectativa de toque;
- A decisão é tomada de forma antecipada, com ampla margem de performance e tempo de decisão.
Importante:
Toda arremetida, rejected landing ou balked landing é, conceitualmente, uma aproximação descontinuada — mas, no uso cotidiano, o termo costuma ficar reservado às decisões tomadas longe do pouso.
Quando falamos em arremetida (go-around)?
Chamamos de arremetida a descontinuação do pouso que ocorre:
- Abaixo de 1000’ AGL;
- Acima de aproximadamente 50’ AGL (falaremos mais desses 50′ na seção sobre rejected landing).
Essa é a arremetida “clássica”, iniciada ainda com margem suficiente para que a aeronave responda à aplicação de potência e inicie a subida antes de qualquer contato com o solo.
Normalmente ocorre por:
- Aproximação instável;
- Meteorologia abaixo dos mínimos;
- Tráfego na pista;
- Alerta de segurança;
- Decisão do piloto.
Aqui, a expectativa é que a aeronave não toque a pista.
O que é exatamente um Rejected Landing?
O rejected landing é uma arremetida iniciada próxima ao solo. O quão próximo? Isso varia de aeronave para a aeronave. A definição do rejected landing é ‘uma arremetida iniciada em condições onde o toque pode ocorrer’. Com essa definição, você começa a entender o porquê de só começarmos a ouvir falar de rejected landing em aeronaves maiores. Em aeronaves mais leves, as reações à inputs nos controles são quase imediatas, a inercia é baixa, e razão de descida na aproximação é menor. Se fossemos tentar definir a altura de rejected landing de um C152, seria algo entorno de 5 pés e o toque, conceitualmente, não faz muito sentido ter uma manobra diferente para uma margem tão pequena. No vídeo abaixo, note que a manete é movida para TO/GA ainda em voo, mas que o toque ainda acontece (e que toque!).
Para aeronaves a jato comerciais, o rejected landing ocorre quando a arremetida é iniciada:
- Abaixo de aproximadamente 50’ AGL (por isso estamos usando esse número no decorrer do post);
- Porém, antes do toque.
E, novamente, mesmo que as ações para iniciar a arremetida sejam iniciadas ainda no ar, o toque ainda pode acontecer, devido a:
- Tempo de reação do piloto;
- Curso da manete da posição de potência de pouso até TO/GA;
- Tempo de spool up dos motores;
- Inércia da aeronave, que ‘atrasa’ a reversão efetiva da trajetória vertical de uma descida para uma subida.
Em um jato como o 737, por exemplo:
- Com uma razão de descida típica de aproximação (~800 ft/min),
- Entre 50’ e o solo há cerca de 3,75 segundos;
- A soma dos tempos decorrentes dos fatores acima pode fazer com que a aeronave toque o solo antes de parar de descer, mesmo com a arremetida iniciada corretamente.
Pontos importantes:
- O toque pode ou não acontecer;
- O procedimento é essencialmente o mesmo da arremetida;
- A principal diferença está na consciência situacional e na atenção aos automatismos que podem ser armados ou acionados pelo contato com o solo.
Um exemplo clássico é a atuação de sistemas como o auto speed brake, caso o toque ocorra, os spoilers podem ser acionados, exigindo a atenção da tripulação.
E então o que é um Balked Landing?
O balked landing é a interrupção do pouso após o toque na pista, ele pode ocorrer por diversos motivos, mas em um exemplo prático, e que todo mundo já viu (ou, infelizmente, fez), é a “arremetida” que ocorre depois daquele famoso catrapo.
Aqui, a aeronave:
- Já tocou o solo;
- Já pode ter entrado, total ou parcialmente, na lógica “ground”;
- Opera em um regime de energia e configuração diferente de uma arremetida normal.
A principal diferença conceitual está no objetivo inicial da manobra:
- Arremetida e rejected landing: foco em razão de subida;
- Balked landing: foco em ângulo de subida, para livrar obstáculos no entorno da pista.
Por isso, os procedimentos mudam:
- A rotação só deve ocorrer na Vref ou acima;
- Se necessário, pode ser preciso abaixar o nariz para acelerar antes de iniciar a subida;
- A seleção de flaps ocorre em momento diferente da arremetida: Por exemplo, no 737, ao iniciar uma arremetida, os flaps são movidos para 15 quase que imediatamente, já em um balked landing, os flaps só saem da posição de pouso para 15 após ser estabelecida uma razão de subida positiva;
- Não é permitido iniciar a manobra se os reversores já tiverem sido acionados.
É uma situação menos comum, mas crítica, e por isso costuma aparecer com mais detalhe em manuais de aeronaves maiores, onde energia e inércia são fatores determinantes.
Por que essa diferença importa na prática?
Porque cada cenário envolve:
- Riscos diferentes;
- Objetivos de performance distintos;
- Interações diferentes com os sistemas da aeronave (especialmente quando a aeronave possui lógica de ground/air mode).
Confundir os conceitos pode levar a:
- Aplicação incorreta de procedimentos;
- Expectativa errada da resposta da aeronave;
- Falhas de monitoramento de automatismos;
- Registros operacionais imprecisos.
Em inspeções e auditorias, a clareza conceitual também ajuda a explicar decisões operacionais e demonstrar aderência aos procedimentos estabelecidos.
Como registrar corretamente esses eventos?
Na maioria das empresas os eventos de arremetidas não são registrados pelos pilotos, justamente para evitar coibir a arremetida por medo de “papelada”, mas havendo um hard landing seguido de um balked landing, ou caso a arremetida tenha sido realizada em decorrência de um windshear por exemplo, ai sim o registro geralmente é obrigatório, e a descrição correta dos eventos é essencial.
Soluções digitais de diário de bordo ajudam justamente nisso: padronizam registros, reduzem ambiguidades e facilitam a análise operacional e a resposta a fiscalizações, sem depender de descrições vagas ou subjetivas.
Conclusão
Embora pareçam sinônimos à primeira vista, aproximação descontinuada, arremetida, rejected landing e balked landing descrevem momentos, riscos e objetivos diferentes dentro da fase mais crítica do voo.
Entender essas diferenças não é preciosismo.
É técnica, é segurança e é profissionalismo operacional.
Se você busca mais clareza, rastreabilidade e padronização nos registros de voo da sua operação, vale a pena conhecer melhor as soluções digitais da Plane it.
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